domingo, 26 de setembro de 2010

As estações em São Paulo




Histórico e Apresentação do Projeto:

por Fabrício Tavares.



O espetáculo As estações na cidade: exercício teatral em 4 movimentos teve origem na proposta temática sugerida em 2006 pelo ator Moisez Vasconcellos: a vida na cidade sob a influência das quatro estações do ano.
A peça, com duração de 70 minutos, foi apresentada em março de 2007, na Sala de Exposições Antônio Caringe, situada no saguão do antigo Grande Hotel, prédio histórico da cidade de Pelotas-RS, como resultado de um primeiro exercício de pesquisa e experimentação de diferentes linguagens que compõem a cena teatral contemporânea.
Desde então, o grupo composto por Fabrício Tavares (roteiro), Celso Krause (trilha sonora original), Waldo León (criação de vídeo, cenografia e iluminação), André Barcellos (criação e edição de vídeo) e Moisez Vasconcellos (direção e atuação), têm pesquisado a conjunção dessas diferentes linguagens, procurando explorar modos não-convencionais de criação e de experimentação teatral que se dêem no encontro dessas linguagens.
Oriundo de uma motivação inicial para a pesquisa em iluminação através de vídeo, conjuntamente com outras linguagens mais tradicionais do teatro, como o texto (a narrativa), a música e a cenografia, o espetáculo As estações na cidade caracteriza-se por seu interesse em utilizar e experimentar novas formas de composição junto à linguagem teatral: como a projeção vertical de imagens sobre o espaço cênico, por exemplo.
Conceitualmente, o trabalho se baseia na perspectiva de um teatro em que a tradicional divisão entre público e cena está colocada a partir de uma fronteira bastante tênue. A proximidade entre ambos, neste espetáculo, evidencia-se pela própria cenografia e iluminação da peça: uma caixa retangular de cor preta, construída para 96 espectadores (intitulada Caja 96), coberta com um tecido branco (voal) recebendo imagens de um projetor multimídia, situado aproximadamente a 15 metros acima da caixa. Estas imagens, que compõem um vídeo de 70 minutos (tempo total do espetáculo), vazam sobre o espaço cênico e servem como única fonte de luz para a peça. Assim, o vídeo projetado na tela que cobre a caixa, funciona ao mesmo tempo como vídeo (imagens em movimento) e como única fonte para a iluminação do espetáculo. Destaca-se aqui a singularidade desta concepção cenográfica e de iluminação, concomitantemente à proposta temática do espetáculo junto à concepção artística do grupo: produzir sensações no público que promovam profundas reflexões sobre a vida.
A própria temática do espetáculo deixa em aberto uma questão geográfica. Construído originalmente na Região Sul do Brasil, o projeto visa também destacar um olhar sobre as quatro estações do ano bem definidas por suas diferenças de clima e temperatura, promovendo assim uma reflexão acerca da influência de cada estação nos corpos que habitam as cidades, tanto no Sul como em outras regiões do país. Destacando características de diferença regional acerca do clima, o projeto visa também, para o restante do país, marcado em muitas regiões por temperaturas quase sempre regulares ao longo de todo o ano, uma exposição e uma reflexão acerca das potencialidades do clima na produção da vida e das relações sociais. As estações, desse modo, aparecem como signos dos acontecimentos que são propostos em cena.
Outro conceito bastante importante, que permeia o projeto deste espetáculo, se baseia na figura do narrador como expressão de uma cultura de oralidade perdida nos tempos atuais. O conceito de narrativa, baseado em Walter Benjamin, remete à possibilidade de transmissão de experiências contadas de uma geração para outra através de histórias oralizadas. Neste sentido, a condição para a narrativa depende da potencialidade do Homem para vivenciar experiências passíveis de serem narradas, ou passadas adiante a outras gerações.
Aqui a construção do roteiro do espetáculo se pauta por uma intensa pesquisa de autores e textos como: Walter Benjamin (em O narrador e Experiência e Pobreza), Friedrich Nietzsche (em O nascimento da tragédia) e Antonin Artaud (em O teatro e seu duplo).
Desse modo, destaca-se, na construção do espetáculo, a concomitância entre aspectos e conceitos tradicionais – de inspiração na leitura nietzschiana do teatro grego, com suas tensões entre o apolíneo e o dionisíaco – e o teatro contemporâneo – com aparatos de tecnologia e estudos sobre o encontro de diferentes linguagens, tais como: a música, o texto, a expressão corporal, a cenografia, a iluminação em vídeo, e a profusão de imagens que compõe boa parte da formação da subjetividade contemporânea.


Sinopse

O espetáculo aborda a vida nas cidades sob a influência das quatro estações do ano: inverno, primavera, verão e outono. A partir desta temática são apresentadas quatro narrativas, uma para cada estação, nas quais são expostos fragmentos de histórias que problematizam a dimensão trágica que atravessa a condição humana.
A peça, um monólogo, constitui-se de uma narrativa não-linear, na qual é apresentada a figura de um narrador como personagem central que, através da memória, narra os acontecimentos que compõem a cena.
Além do texto, o cenário, a iluminação (composta exclusivamente por um vídeo) e a música desempenham função imprescindível para criar a atmosfera necessária à temática proposta pelo espetáculo. No encontro entre essas linguagens criam-se sensações de invernos, primaveras, verões e outonos; sensações desencadeadas pela problemática do encontro entre os corpos e as diferentes temperaturas, climas, afetos e humores que produzem a vida, em seus contornos imprevisíveis, no contexto das cidades.



Ficha técnica:


Direção e atuação: Moisez Vasconcellos;
Roteiro e criação de textos: Fabrício Tavares;
Co-autoria de textos nas Narrativas Inverno e Outono: Beatriz Rodrigues Ferreira;
Trilha sonora original: Celso Krause;
Criação de vídeo, cenografia e iluminação: Waldo León;
Criação e edição de vídeo: André Barcellos.

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